11 dezembro 2012


Kulumani é um lugar remoto onde a tradição parece reinar soberana e muitas das almas que a habitam parecem, por vezes, pouco mais que mortos em vida. Mas as sucessivas mortes causadas por ataques de leões chamam a atenção para o lugar e enquanto as próprias gentes de aldeia se insurgem contra os que julgam ser "fabricadores de leões", também um verdadeiro caçador é chamado. Mas há uma história para lá dos ataques e da busca dos responsáveis: a história de Mariamar, mulher estranha, marcada pela loucura, pela tristeza, pelas cicatrizes de demasiadas dificuldades; a história também de Arcanjo Baleiro, o caçador que vem determinado a que aquela seja a sua última caçada, mas que se descobre bastante diferente do que ele próprio via em si; a história, em suma, de um lugar onde o estranho se torna normal, onde os leões se tornam homens e as mulheres se tornam leões.
Escrito com uma harmonia fluída e momentos marcantes pela beleza com que são descritos, este é um livro que, numa narrativa que, por vezes, parecendo bastante simples, acaba por se revelar como uma visão vasta e complexa tanto das dificuldades das gentes de Kulumani como das suas estranhas regras e tradições. Nem a missão da caçada é tão simples como parece a princípio, nem os seus protagonistas são exactamente o que parecem ser. E, tanto na narração de Mariamar, com a sua visão pessoal e próxima da vida na aldeia, mas também com todo um relato de experiências cruéis e de uma consequente mudança na solidez da sua identidade, como na de Arcanjo, com uma visão mais distanciada dos costumes de Kulumani, mas também com um lado pessoal no passado que lhe assombra cada gesto, há os sinais de um crescimento que, definido, em grande parte, pelo passado, se reflete tanto na estranheza que carateriza os protagonistas como no retrato global do ambiente em que tudo decorre.
Esta é, portanto, muito mais que a história de uma caçada. É também o crescimento de uma mulher a quem nunca foi permitido ser exatamente ela mesma e que, por isso, se tornou algo diferente e a descoberta de alguns segredos para um passado eternamente inacabado a pesar sobre os ombros de um homem que amou julgando não ter quem lhe correspondesse. Mas, mais que isso, esta é a história de Kulumani, com os seus estranhos hábitos, com os espíritos que pairam sobre a passagem do tempo e com homens e feras que se confundem e mutuamente trocam de papel. É esta fusão entre o global e o pessoal, entre a história das pessoas e a crónica do lugar, o que mais cativa nesta história que é, toda ela, impressionante, tanto a nível de escrita, como de caraterização, como ainda no aspecto emocional.
Com uma escrita belíssima e uma história que, cativante desde o início, se revela, com o evoluir da narrativa, nas suas vastas potencialidades, a impressão que fica desta leitura é, portanto, positiva em todos os aspectos. Uma história de homens e de leões, mas também de povos e de lugares... e um livro que fica na memória.
CC

02 dezembro 2012

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