11 março 2014

E continuamos a falar de...Autismo

Continuando a nossa parceria, de grande interesse, com o professor João Amaral, aqui vos deixamos mais um texto de sua autoria. O nosso obrigada pela excelente colaboração.

AUTISMO (Perturbação do Espetro do)
Escrever sobre o Autismo é falar um pouco de nós próprios. Uma espécie de olhar que se lança no espelho e que reflete os nossos receios, desconfortos, medos e incapacidades face a um mundo que por vezes se apresenta sem sentido, vazio, desestruturado e violento. Um mundo que nos confunde os sentidos e nos leva ao fechamento em torno de nós próprios. Ao longo destes quase vinte anos de docência na Educação Especial tive o privilégio de (com)viver, em contexto escolar, com mais de uma dezena de crianças e jovens que se enquadravam naquilo que, hoje, conhecemos por Perturbação do Espetro do Autismo. De cada um e de cada uma (são mais os rapazes do que as raparigas que apresentam esta Perturbação), guardo sinais de descoberta de personalidades únicas e características pessoais que me levaram a questionar profundamente, de forma quase filosófica, o sentido do ser e da (co)existência com os outros seres vivos e objetos que nos rodeiam. Entre milhentas descobertas fui tomando consciência de que, na vida, é mais o que nos une do que aquilo que nos separa e de que um ambiente protetor em que nos sintamos amados e protegidos nos torna, a todos e a todas, mais felizes e saudáveis… e descoberta fundamental… a Escola Inclusiva e para tod@s ajuda-nos a percorrer essa estrada feita caminho em que juntos somos mais gente com gente.
Claro que muito pouco de tudo isto vem nos livros ou nos estudos científicos sobre o Autismo.
O que dizem os livros…
 
O Autismo é uma disfunção global do desenvolvimento. Uma alteração que afeta a capacidade do ser humano em comunicar (verbalmente e não verbalmente), em socializar-se (estabelecendo relações interpessoais adequadas) e em apresentar comportamentos reconhecidos como descontextualizados em relação aos diferentes ambientes de vida e às atividades realizadas nesses mesmos ambientes.

Descrito pela primeira vez, em 1943, pelo médico austríaco Leo Kanner e pelo seu colega e conterrâneo Hans Asperger em estudos distintos, independentes e geograficamente separados, a palavra Autismo tinha sido utilizada, em 1911, pelo Dr. Eugene Bleuler como caraterística de um dos sintomas da esquizofrenia que descreveu como «… fuga à realidade…».
Os trabalhos e estudos científicos recentes têm um maior conhecimento das causas do Autismo possibilitando o diagnóstico nos primeiros anos de vida e consequentemente a intervenção educativa precoce adequada ao desenvolvimento de cada uma das crianças que apresentam este transtorno no desenvolvimento.
Alguns dos métodos de tratamento e intervenção mais conhecidos e utilizados na atualidade são:
 
- O método TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Related Communication Handicapped Children). É um dos métodos de intervenção mais utilizados e espalhados pelo mundo. Recorre à utilização de diferentes estímulos visuais e auditivos com o objetivo de desenvolver a linguagem, melhorar a aprendizagem e reduzir e gerir os comportamentos.

- O ABA (Applied Behaviour Analysis). Trata-se de uma método que, como o próprio nome indica, utiliza a Análise do Comportamento Aplicada tendo por base os conhecimentos facultados pela psicologia comportamental.

- A Farmacoterapia é uma área que, apesar de alguma polémica, é hoje reconhecida como muito importante ao nível da ajuda à intervenção socioeducativa e comportamental. Depende sobretudo das características e das necessidades individuais (redução de comportamentos obsessivos, estereotipias, comportamentos auto e heteroagressivos, alheamento,...

- O PECS (Picture Exchange Communication System) é um recurso de enorme importância utilizado no desenvolvimento da linguagem e da comunicação em autistas verbais e/ou não-verbais. Trata-se de um sistema composto por figuras que espelham as necessidades, ações e/ou os interesses individuais. Para além da comunicação este sistema facilita a compreensão e a gestão comportamental. O recurso a imagens representativas do contexto quotidiano de vida é uma alternativa a ponderar para a planificação e a gestão de rotinas de trabalho assim como para as escolhas individuais.

- Educação Inclusiva na escola regular, na área de residência (se possível), no meio dos amigos, colegas e vizinhos e assistido por uma equipa transdisciplinar adequada às necessidades individuais. Tem demonstrado ser o ambiente mais adequado ao pleno desenvolvimento de todas as competências apresentadas pelas crianças e jovens enquadrados no espetro do autismo assim como de todos os seus colegas que frequentam os mesmos espaços educativos e escolares. Basta, sobretudo, que os recursos adequados existam mas também que a disponibilidade e o amor se encontrem presentes como uma constante. Uma vontade que torne possível adequar e introduzir as alterações necessárias ao nível da organização e da gestão dos espaços educativos e escolares. Continua a ser uma aposta lançada ao futuro.




 
 
Para saber mais (fontes):



http://www.fpda.pt/
 
http://www.appda-setubal.com/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Autismo

A Ver:
Temple Grandin, realização Mick Jackson (2010, EUA)
Trailer em http://www.youtube.com/watch?v=cpkN0JdXRpM
Encontro de Irmãos (Rain Man), realização Barry Levinson (1988, EUA




Trailer em http://www.youtube.com/watch?v=mlNwXuHUA8I
A Ler:

Compreender o Autismo - Estratégias para Alunos com Autismo nas Escolas Regulares, HEWITT (Sally) Hewitt, 2010; Porto Editora; Coleção EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE



 Autismo - Conceitos, Mitos e Preconceitos, FILIPE (Carlos Nunes) Filipe, 2012; Editorial Verbo


João Paulo Amaral

(professor de educação especial e coordenador da UM – Unidade Especializada de apoio à Multideficiência e Surdocegueira Congénita)

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